Flor de um dia

poesia

José Carlos Costa Marques

[Num céu meridional um garoto de bruços]

Num céu meridional um garoto de bruços No encanto do sol a respiração das casas Uma flor ameaçada não receia que murche e à poeira se expõe redonda e aberta   Coração de criança ao longo de um corpo com seu peso de anos com seu túmulo aceso Coração sempre virgem...

[Nos penhascos de outrora,]

Nos penhascos de outrora, no tempo virgem dos amigos no céu do início, no pranto e no ranger de dentes com que aos quinze anos se entra no mundo, o espanto da flor nascendo sem terra ou raiz. Nas falésias de Lagos, quando o tempo sobre si rodou o giro árido de...

Poente em Faro

No vidro translúcido de vinho rosa bate o sol inteiro, na ria, na doca, nas portas do mar, a gaivota grasna. Na palma estendida, no vime entrançado, oiro goteja num halo azul. Declina o dia, a nuvem cinza filtra a luz brilhante, amaciada. O rosto interroga e aguarda,...

Laranjeira

Porque negas teu sorriso sob a fresca laranjeira de ouro verde? Porque desvias o rosto à encruzilhada que o acaso traçou como se o cão luciferino ou lobo esfaimado passasse uivante e do desconhecido não tivesses proteção? É quem passa apenas um pobre de pedir, mendigo...

[Verde e rosa]

Verde e rosa na manhã de inverno – nos braços do sol o bebé dorme. Cai a tarde e o sol dardeja, a alta labareda crepita no coração teimoso. Tudo murcha e morre, porém vivo nos braços da mulher jovem o bebé dorme. Nada morre, o bebé dorme e o rosto ingénuo refulge sob...