Porque negas teu sorriso
sob a fresca laranjeira de ouro verde?
Porque desvias o rosto à encruzilhada que o acaso traçou
como se o cão luciferino ou lobo esfaimado passasse uivante
e do desconhecido não tivesses proteção?
É quem passa apenas um pobre de pedir,
mendigo em farrapos
que os cães perseguem,
beduíno arrastando no deserto sede tamanha que um camelo de água
não saciaria.
Não é porém o alto copo de água fresca em tua mesa
o que ele cobiça,
sequer a gota que distraidamente tombou no lenço muito alvo
onde tua mão repousa,
não é a laranja que cintila
com seu sol no sol de um julho espelhante
de cal azul,
nem seus gomos escorrendo a seiva que refresca o olhar da mais
ressequida garganta incandescente,
não é ainda sequer o gelo da alma alheia que tudo cresta
mais que o sol
e que a fornalha do suão levante faria desejar quiçá como se um bálsamo,
um refrigério ou luz ou paz.
O que essa garganta onde arde o deserto
cobiça apenas,
o que esse sangue que o sal ameaça queimar apenas pede
não é sequer a sombra da laranjeira onde colheste o fruto cujos gomos
teus dedos abrem.
O que cobiça e o que pede,
o que brada em grito alto inteiramente por dentro do silêncio
mais cerrado,
é apenas somente a sombra sim da folha mas a mais ténue
mais rasgada
e ressequida
a sombra sim mísera e diminuta, grão de poeira
pequeníssimo e perdido na sombra maior
daquela laranjeira.