Agora após a mudança mais recente de uma vida aciganada e fatal
diariamente passo frente ao muro branco deste cemitério
com seu alto renque escuro de ciprestes
e as flores e coroas e pequenos objetos piedosos nas vitrinas
das agências funerárias
cada manhã emergem por dentro da rara bruma invernal
ou fulgem brilhando ao sol íntimo desta cidade de costas voltadas
para o rio
Um avô distante quando a infância fica longe e tudo aos vinte anos
se renega
um vago parente afastado que a doença devastara e há muito não se via
o longínquo amigo alcandorado aos cumes da fama e a quem o nosso
coração perdeu acesso
ou esse outro ainda no átrio apenas de ser amado e já colhido
naquela praia tão remota pela onda abominável e certos dias desejada
como festa e bálsamo
ou esses mortos
apenas abstratos
numéricos apenas
das guerras fomes catástrofes
estatísticas vulcões cataclismos
da geral infâmia maldade e indiferença
tudo isso junto que magra experiência que escasso contacto com a macaca
a gadanha a amorável mão libertadora!
Já no meio do caminho e nem um jota nem um polegar nem um mindinho
do mais inadiável conhecimento.
Que outro remédio senão percorrer a treva pelo meio da noite
e da manhã incandescente
passar rente ao grande muro branco rente à ardente câmara
e no segredo lembrar essa outra vida já extinta aquele desconhecido
que o cangalheiro competente acondicionou com perfeição
cadáver minutos antes ainda bebendo e rindo
e ao alto erguer uma prece daquelas que dispensam
qualquer credo e rito
O que de nós partir primeiro o que atrás for deixado batido pela dor
esse tocará então o fundo já tocado beijará de novo a ferida já sangrada
e com a piedade imensa que se aprende a duros golpes da fortuna
e que os felizes não toleram
com aquela piedade com que se acolhe nos braços o crucificado
descido do madeiro
com aquele olhar que já não é humano que já é pedra é besta é anjo
com esse olhar as tuas mãos as minhas mãos
sobre a pedra fria
sobre a laje fria aconchegante
pousarão enfim a singela lembrança exposta na vitrina da loja mortuária
de roxo revestida pequena faixa votiva sem beleza e onde está escrito
«Último Beijo».