Flor de um dia

poesia

José Carlos Costa Marques

Último beijo

Agora após a mudança mais recente de uma vida aciganada e fatal

diariamente passo frente ao muro branco deste cemitério

com seu alto renque escuro de ciprestes

e as flores e coroas e pequenos objetos piedosos nas vitrinas

das agências funerárias

cada manhã emergem por dentro da rara bruma invernal

ou fulgem brilhando ao sol íntimo desta cidade de costas voltadas

para o rio

Um avô distante quando a infância fica longe e tudo aos vinte anos

se renega

um vago parente afastado que a doença devastara e há muito não se via

o longínquo amigo alcandorado aos cumes da fama e a quem o nosso

coração perdeu acesso

ou esse outro ainda no átrio apenas de ser amado e já colhido

naquela praia tão remota pela onda abominável e certos dias desejada

como festa e bálsamo

ou esses mortos

apenas abstratos

numéricos apenas

das guerras fomes catástrofes

estatísticas vulcões cataclismos

da geral infâmia maldade e indiferença

tudo isso junto que magra experiência que escasso contacto com a macaca

a gadanha a amorável mão libertadora!

Já no meio do caminho e nem um jota nem um polegar nem um mindinho

do mais inadiável conhecimento.

Que outro remédio senão percorrer a treva pelo meio da noite

e da manhã incandescente

passar rente ao grande muro branco rente à ardente câmara

e no segredo lembrar essa outra vida já extinta aquele desconhecido

que o cangalheiro competente acondicionou com perfeição

cadáver minutos antes ainda bebendo e rindo

e ao alto erguer uma prece daquelas que dispensam

qualquer credo e rito

O que de nós partir primeiro o que atrás for deixado batido pela dor

esse tocará então o fundo já tocado beijará de novo a ferida já sangrada

e com a piedade imensa que se aprende a duros golpes da fortuna

e que os felizes não toleram

com aquela piedade com que se acolhe nos braços o crucificado

descido do madeiro

com aquele olhar que já não é humano que já é pedra é besta é anjo

com esse olhar   as tuas mãos   as minhas mãos

sobre a pedra fria

sobre a laje fria aconchegante

pousarão enfim a singela lembrança exposta na vitrina da loja mortuária

de roxo revestida  pequena faixa votiva sem beleza e onde está escrito

«Último Beijo».

 

 

Retirado do livro: Último Beijo
1986-88

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