Flor de um dia

poesia

José Carlos Costa Marques

O outro lado

O tempo em seu rosto abriu já rugas   as primeiras

A luta   a labuta lavraram sulcos fundos fundas olheiras

Seus cabelos na cabeça Deus começou já a descontá-los

A juventude dentro dele já quer sair ele tenta agarrá-los

Mas ela já se vai já começa a partir já toma o largo

 

Nunca foram as donzelas tão alheias tão belas fascinantes

Tão gráceis prometedoras esquivas tão distantes

Nunca as miragens ousaram ser tão atraentes

As esperanças tão fugazes as ilusões tão evidentes

Nunca o peso dos dias pareceu tão breve tão fugaz e amargo

 

Ela ali está com suas primeiras madeixas brancas

Longínquas e perto como sempre as mãos macias as ancas

Abrigando tempestades acolhendo sonhos molhados impossíveis

Acaricia lenta e demorada um beijo um sorvo um trago

 

Da vida o outro lado começam já a vislumbrá-lo

A boca e a pele o carinho em silêncio no estreito gargalo

Do  tempo esvaindo-se ainda os reúne ainda os separa

Ainda as águas calmas lhes nega do prometido lago

 

Da vida o outro lado desponta no horizonte adivinhado

Como com eles brinca o tempo cruel e ainda tão amado!

 

Retirado do livro: Investigação da Alegria
Publicado em 1989, poema de 1976-78

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