Flor de um dia

poesia

José Carlos Costa Marques

Laranjeira

Porque negas teu sorriso

sob a fresca laranjeira de ouro verde?

Porque desvias o rosto à encruzilhada que o acaso traçou

como se o cão luciferino ou lobo esfaimado passasse uivante

e do desconhecido não tivesses proteção?

É quem passa apenas um pobre de pedir,

mendigo em farrapos

que os cães perseguem,

beduíno arrastando no deserto sede tamanha que um camelo de água

não saciaria.

Não é porém o alto copo de água fresca em tua mesa

o que ele cobiça,

sequer a gota que distraidamente tombou no lenço muito alvo

onde tua mão repousa,

não é a laranja que cintila

com seu sol no sol de um julho espelhante

de cal azul,

nem seus gomos escorrendo a seiva que refresca o olhar da mais

ressequida garganta incandescente,

não é ainda sequer o gelo da alma alheia que tudo cresta

mais que o sol

e que a fornalha do suão levante faria desejar quiçá como se um bálsamo,

um refrigério ou luz ou paz.

O que essa garganta onde arde o deserto

cobiça apenas,

o que esse sangue que o sal ameaça queimar apenas pede

não é sequer a sombra da laranjeira onde colheste o fruto cujos gomos

teus dedos abrem.

O que cobiça e o que pede,

o que brada em grito alto inteiramente por dentro do silêncio

mais cerrado,

é apenas somente a sombra sim da folha mas a mais ténue

mais rasgada

e ressequida

a sombra sim   mísera e diminuta, grão de poeira

pequeníssimo e perdido na sombra maior

daquela laranjeira.

 

 

Retirado do livro: Branco, Azul e Canela
1983-85

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