Flor de um dia

poesia

José Carlos Costa Marques

Solidão 2

um homem que a terrível solidão

visitou um dia

um homem vergado para o chão

com os dentes sobre o pó

um homem que nunca mais pôde endireitar as vértebras

quando a rajada violenta e inesperada

o dobrou como uma árvore jovem

até à raiz mal segura

um homem que viu todas as máscaras caindo

todos os véus que se rompiam

de repente numa voz numa única impotência

viu todos os rostos alhearem-se dispersos

um homem que a terrível solidão marcou com o seu peso

um homem que cresceu à sombra

da terrível árvore da solidão

um homem que a conheceu como os seus dedos

que lhe viu o pulso

que lhe sentiu o hálito e o sopro junto à face

que a beijou de manso depois de saciado

que aguardou o momento para que, tendo-se retirado,

a solidão o deixasse só

 

parece-me que não serei capaz de dar um nome a este homem

 

Retirado do livro (inédito): Meninice
03-09-1963

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