Flor de um dia

poesia

José Carlos Costa Marques

Névoa

Ó reclamada névoa de pinhal,

ó flores que um lavrador

amou cantando,

vinde até hoje

deixai o vento modelar o barro

e pássaros da terra ainda

surgem

Que as coisas são opacas    duras

tristes e informes

E apesar de tudo

somos ainda homens

homens cantando as névoas de um pinhal

 

❧

 

Areia cabe nos dedos

mas poucos

apenas alguns distraídos

reparam nisso

 

❧

 

Areia ali está

cantando

desde os pinhais de Dinis

 

❧

 

Que se sabe do túmulo

de Isabel?

 

❧

 

Que de ventos nos comovem

se não sabendo onde

nos procuram?

Ventos, ventos da charneca

nos cavalos do vento

chega a onda

que nos cobre

Ventos sois

não fantasmas

 

❧

 

Flores

verdes flores do pinho

sabeis vós do meu amigo?

O meu amigo – mas verdadeiro

amigo –

o companheiro das estradas

o que comigo sonhou

a decadência

o que comigo em dois

se dividiu

sabe-se acaso o mar

que o ganhou?

Flores

verdes flores do mar

mudas não sois

senão amadas

ó flores do rei

ó encobertas

 

 

Retirado do livro: Breve Luz Nos Morde
1967 (data de publicação; os poemas remontam provavelmente a 1960)

 

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